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Secretárias de anedota

Luis Fernando Verissimo

Mulher telefona para o marido no escritório. Atende a secretária de anedota.

- Ele está ocupado? – pergunta a mulher.

- Só o colo – responde a secretária de anedota – mas eu já vou levantar.

xx -- xx -- xx

Patrão para a secretária de anedota, pelo interfone:

- Fulana (o nome verdadeiro não é este), quero ditar uma carta.

- Levo a minha caneta?

- Melhor não. Da última vez você esqueceu no motel.

xx -- xx -- xx

As secretárias de anedota só existiam para uma coisa, por isso não precisavam ser muito eficientes em nenhuma outra.

- Dona Solange, venha até aqui e traga o bloco de anotações e um lápis.

- Eu nunca me lembro, o lápis é o preto e compridinhos ou é o contrário?

xx -- xx -- xx

Não existem mais secretárias de anedota. O estereótipo acabou. Hoje as secretárias são tudo – colaboradoras, confidentes, alter e superegos, consciências, memórias, enfermeiras, mães – mas raramente são amantes. Desejar a própria secretária é uma forma particularmente reprovável de incesto: pior do que um tabu, uma inconveniência. Isso quando as secretárias de anedota não se transformam em patroas, com secretários homens. Já existirão secretários de anedota?

xx -- xx -- xx

- Ricardo, vou precisar de você até mais tarde, hoje.

- Sim, senhora.

- Pretendo limpar a minha mesa.

- Quem sabe eu limpo a minha, e a gente usa esta?


Oportunismo

Chamem de presunção ou de oportunismo, mas se houver reencarnação eu quero voltar como meu biógrafo.


No motel

- Vem, bem...

- Espera só um pouquinho.

- Não é possível. Em casa nós não fazemos amor porque tem sempre um filme na TV que você precisa ver o fim. A gente vem pra um motel, com cama redonda e cine privê, e é a mesma coisa?!

- Só um minutinho.

- Desliga essa TV e vem, bem!

- Calma. Eu só quero saber se no fim a moça fica com o encanador ou com o pastor alemão.



Três poemas precavidos

Da série “Poesia numa hora destas?!”

1
Cuidado, muito cuidado.
É quando não se espera
que acontece o inesperado.

2
A lição da História é de graça:
façamos a revolução antes que
algum revolucionário a faça.

3
Diga que você não estava lá.
Que a foto foi retocada.
Que você nunca disse tamanha
bobagem.
E que se a conversa foi gravada,
é montagem.
Só depois deste alarido,
do desmentido na lata
e de tudo esclarecido
pergunte do que se trata.


Domingo, 19 de setembro de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.